Conto silencioso do amaldiçoado #2

10:35 AM. O Sol já saiu há tempo. Nossa, como meu cabelo está bagunçado! Mas é assim que eu gosto. Como eu havia pensado, hoje será um excelente dia. Mas, antes de tudo, eu preciso rever meu plano e não posso me descuidar. Tudo precisa ser perfeito.

05:07 PM. É incrível, quando fazemos algo que gostamos, o tempo voa. O meu trabalho não pode ter erros, as minhas ações têm que ser tão precisas quanto uma cirurgia de separação de irmãs siamesas.

Fui para a janela, lembrei-me de que estamos no horário de verão e só escurece às 20 horas, apenas. Não sei se o horário de verão deveria me atrapalhar ou me ajudar. Por um lado, me ajuda com a conta de energia elétrica; por outro, mexe com todo os meus sentidos. Já vi casos de pessoas com jet lag por causa dessa mudança.

Vejo através da janela de meu quarto que o dito-cujo se encontra ali, jogando seu tão amado futebol. Por que será que existem pessoas que conseguem sentir que correm perigo, e outras, como tal tolo, que não enxergam que sua vida se dirige para um fim prematuro e inevitável?

Para vocês, leitores, que não sabem o que sou, saibam que nem eu sei o que sou, sou uma confusão de tudo com nada, sou a pessoa mais estranha e ao mesmo tempo intrépida. Sou sozinho, mas, ao mesmo tempo, estou sempre muito bem acompanhado.

Está na hora de botar meu plano em ação.

Preparo-me para a delícia. Tranco minha porta e desço as escadas com uma leveza bela. Reparo tudo ao meu redor. (bum) Como eu amo mariposas! As três mariposas da morte são as minhas preferidas, desde larvas, são belas. Pena que elas só existam na Europa e na Ásia. Ainda bem que há os contrabandistas.

Chego na quadra onde o dito cujo se encontra. Ele acha que eu sou amigo dele, uma pena, decepcionar-se-á, de fato. Fico observando o jogo de perto, ele não possui habilidade. É apenas um monte de nada. O jogo enfim acaba, todos estão suados, cansados e satisfeitos com o jogo. Ele está lá sozinho; falarei com ele. Sou uma pessoa de uma conversa fácil, gosto de fazê-lo. O prédio de tal, se encontra de frente para o meu, são poucos metros de distância que nos separam. Convenço-o de ficar um pouco mais ali comigo, conversando. Até que estamos sozinhos, um grande e belo deserto de cimento noturno. Eu acendo a luz.

09:45 PM. Percebo que tenho apenas mais quinze minutos até que o guarda noturno, Seu Manoel, chegue. Preciso fazê-lo. Falo que estou cansado, e que quero ir para casa. Ele segue a deixa e vamos junto para casa. Pego no meu bolso detrás minha luva de borracha, ponho-a sem que ele perceba. Deixo-o em seu portão, ele toca o interfone. AGORA! Em um rápido movimento, pego no bolso de minha frente o estilete, boto a minha mão esquerda, nua, em sua boca. Hora da carótida! Começo a gritar, peço para que ele pare, peço para que ele não faça isso, que essa não é a resposta para a vida…”suicídio” não é a resposta. Olho em seus olhos ensaguentados, dou um leve e prazeroso sorriso. Hora da femoral. Tenho que fazer isso como se estivesse com receio de fazê-lo, afinal, ele está “se matando”. Pronto, hora de ir lavar o sangue das luvas. Ah sim, hora de um pouco de lágrimas também. Subo as escadas em direção ao apartamento do defunto, bato a porta com ferocidade, a mãe me atende assustada. Dou uma gaguejada e digo que o filho dela está morto. (bum) Mãe se exalta e vai em direção ao ser, o pai ouviu o falado e desce as escadas depressa, junto a mim, em direção ao ser que ainda tinha sangue escorrendo. A mãe, ao ver o rio de sangue, desmaia. O filho mais novo chora, impede que a mãe caia no chão. O pai grita lamúrias ao falecido. (bum) Esqueçam tolos, seu filho já perdeu mais da metade do sangue, ele “se” cortou em duas artérias principais. Eu sinceramente acharia mais interessante cortar as artérias axilar ou braquial de ambos os braços, mas assim não pareceria um suicídio para o pessoal da perícia. Digo para os pais que estou muito chocado e que não posso continuar a ver aquele monte de sangue, preciso ir para casa. E, de fato, preciso. Afinal, tenho que lavar a louça e botar a luva de borracha em seu devido lugar.

Hoje é noite de lua cheia…e como o sangue foi lindo!

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Trilha do dia:

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Citação do dia:

“A compaixão nem sempre é uma virtude. Quem poupa a vida do lobo, condena a morte as ovelhas.”

Victor Hugo

11 thoughts on “Conto silencioso do amaldiçoado #2

  1. Um conto diferente, percebi que explora a psicopatia, e sei que leste bastante a respeito, desenvolveste bem o contexto dentro da temática do conto, interessante.

    Um abraço.

  2. Texto muito bem redigido e apesar de longo não nos faz perder o foco e interesse em continuar a ler até o fim.
    Gostei da proposta do seu blog, virei mais vezes.

  3. Bom já comentei na reflexão 45… mas aqu vou eu de novo…
    Eu sou mt luzes e otimismo, hehehe, então o conto me deixa um pouco down… hahaha… Mas de fato está realmente bem escrito.

    Abraços

  4. Eu disse ontem que era meio down? É completamente psicótico, mt sangue frio. Bom, existem mesmo pessoas que são assim. O que será que isto significa? Isto pode ser um bom pensamento, por que surgem pessoas que conseguem dissimular tanto? E que não empatizam?

    Bom é isto, abraço

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