Resenha musical

Sinfonia Manfredo por Tchaikovsky, op. 58

A “Sinfonia Manfredo” é, de longe, um dos trabalhos mais complexos e mais belos de Tchaikovsky. É uma sinfonia programática/incidental, baseado na poesia “Manfredo” de Lord Byron. Ela foi composta em ode ao compositor russo Mily Balakirev.

(títulos com links do megaupload para download de seus respectivos movimentos).

– Primeiro Movimento – Lento lugubre. Moderato con moto. Andante. (17:25)

O primeiro movimento é baseado na parte em que Manfredo está desesperado pela perda de sua amada Astarte. É um movimento triste, desesperador e, por vezes, sufocante. Seu início se dá por dois oboés e um clarinete baixo, que se sucede pelas dissonâncias da viola, violoncelo e contrabaixo. É um início triste e um tanto melódico.

A busca de Manfredo pela sua amada, Astarte, é constante e cheia de culpa, para ele. Afinal, ele se sente culpado pela morte de sua amada (o motivo da morte não é explicitado). Ele grita seu nome, mas apenas há os ecos das montanhas de Alpes Berneses.

Um movimento repleto de dissonâncias muito bem arranjadas e pensadas; de cromatismos que dão um drama ainda maior para a música.

Até que a música é invadida por um fagote que segue em uníssono com o violoncelo, seguida por uma trompa que toca um tema de extrema tristeza. É um dos temas mais belos de toda a música. Demonstra um desespero ofegante por parte de Manfredo. Na gravação que mostro a vocês, o maestro decide, por algum motivo, não deixar o fagote executar seu solo, talvez para dar uma maior “simplicidade” e vazio à música, demonstrando o sentimento de Manfredo. Logo após tal tema, o tema principal do movimento é tocado pelos clarinete e os dois fagotes, algo que demonstra que o sentimento que antes parecia estar dando espaço a outro, ainda existe, de maneira mais fraca, mas ainda assim existente, que é logo invadido por flautas e oboés e então há a explosão com os tremolos das cordas e a volta das dissonâncias. Após tal, a solidão dada pelas cordas volta.

Após tanto drama em cima da música, parece que ela volta a ser mais calma, mais harmoniosa, com menos dissonâncias. Parece que Manfredo esquece das ideias de suicídio e começa a voltar ao seu estado são. Uma harpa invade a música com um belo arpejo, dando mais cor à orquestra com seus vários outros arpejos.

E em um relance inesperado, entram vários sopros em uma melodia um tanto quanto bélica. Demonstra que Manfredo pode estar em perigo, ou até em uma luta, e, se for esse o caso, talvez uma luta interna contra seus sentimentos que atormentam-no, incitando-o ao suicídio, ou a uma auto-mutilação por causa da grande culpa que sente. Por trás aparecem as cordas tocando o tema principal do movimento.

Um final um tanto quanto conturbado e épico. Talvez Manfredo tenha vencido sua luta.

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Segundo Movimento – Vivace con spirito (9:29)

Nesse movimento, é quando a Fada Alpina aparece para Manfredo como um arco-íris graças a uma cachoeira. É um movimento um tanto quanto “brincalhão”, possui uma melodia mais alegre, marcada pelos sopros.

A partir de 3:00 começa um waltz (valsa) pelo que parece. Uma melodia muito delicada e bonita. Ao longo da valsa, ela vai deixando de ser uma valsa, passando a ser algo mais caótico, com muitas melodias por trás do tema principal, demonstrando uma certa confusão por parte de Manfredo, até que, enfim, o tema sem confusões, marcado pelo agudo dos violinos. Algo acontece, a valsa para, e um drama toma conta. Até que então o tema inicial do movimento é retomada, mostrando a volta da calma e da “brincadeira”.

Quase no fim da música, sopros tocam o tema principal da sinfonia, mostrando uma talvez volta dos sentimentos de Manfredo.

Na minha opinião, esse não é um movimento onde eu consiga falar muito sobre. Ele é basicamente sobre a visita da Fada Alpina para Manfredo.

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Terceiro movimento – Andante con moto (12:20)

O terceiro movimento se trata de quando Manfredo se confronta com a vida dos caçadores alpinos, uma vida tranquila, pacífica e livre das montanhas.

Inicia-se com um belo solo de oboé, que toca o tema principal do movimento. Logo após, vêm as cordas tocando o tema. Por volta dos 1:55, aparece a trompa tocando o mesmo tema que é tocado no primeiro movimento. Isso talvez se faça pelo fato de a tamanha tranquilidade, lhe dar espaço para reflexões do passado, o que o leva aos sentimentos antigos de melancolia. Durante o desenvolvimento, os Violinos I ficam numa subida e descida de escala em piano, um fato que me leva a acreditar que a confusão de Manfredo está se esvaindo e dando lugar à calma do lugar em que se encontra. Quando os Violinos I param de tocar tal melodia, entra uma nova melodia de clarinete, uma melodia alegre, pacífica. Quando tal melodia para, dá-se lugar a uma melodia mais dramática, com grande uso dos sopros em uma melodia um tanto quanto dramática. Tal melodia para; dá-se lugar às flautas, oboé, corne inglês e o clarinete, que tocam o tema principal em um cânone com um tempo de diferença entre cada instrumento, respectivamente.

O tema principal de toda sinfonia volta. A dor, a melancolia e o arrependimento pela morte de sua amada voltam. Os temas que eram do primeiro voltam, e a trompa toca de novo seu tema durante várias vezes nesse movimento. Os sentimentos de Manfredo voltam com força, e dificilmente irão embora. As dissonâncias voltam mais uma vez para assombrar Manfredo. Sentimentos uma vez esquecidos voltam com uma intensidade grande demais para Manfredo, talvez a vontade do suicídio volte. Talvez não! A melodia pacífica do clarinete volta; Manfredo esquece de vez, pelo que parece, tais sentimentos que o matam por dentro.

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Quarto Movimento – Allegro con fuoco (19:07)

Impressiono-me com a grandeza desse tal de Manfredo. Neste movimento, Manfredo se encontra de frente aos portões do inferno (o infernal Arimanes), onde ele deseja encontrar sua amada Astarte. E é incrível, ele encontra o seu fantasma. E o incrível, meu caro, quando Manfredo atravessa os portões do inferno, ele se vê no meio de um bacanal e é lá onde ele vê sua amada, de uma forma que ele nunca esperou vê-la, uma imagem retorcida, feia e maldita. Mas é incrível, como mesmo defronte a tal horror, seu desejo de possuí-la ainda se faz imenso, ele ainda a deseja e os sentimentos, que antes eram de um tormento eterno, deixam de sê-lo e se transformam, enfim, no que eram antes: amor. Com tal sentimento, Manfredo acaba por se matar para poder viver ali com seu amor.

A música é rápida, um tom bélico é um tanto quanto constante. Dá para visualizar com facilidade Manfredo na frente dos portões de Arimanes infernal. É uma música um tanto quanto desesperadora e sufocante, dá para sentir, através dela, como Manfredo se sente ao se deparar com tal visão do que é o inferno.

Em torno dos 4:20, a música começa a se tornar mais calma, mais melódica e menos “infernal”. Pode-se entender a partir de tal, que talvez seja o momento em que Manfredo olha para a sua amada; ele vê o estado dela e chora, se sente triste pelo o que ela é agora. É um tom misterioso, triste e sufocante que fica, até que, em seu desenvolvimento, a música é levada para o sentimento em que Manfredo sentia no primeiro movimento. A vontade do suicídio se torna ainda maior pelo fato de ele estar, ao mesmo tempo, tão perto e tão longe de sua amada. Ele é circundado pela dúvida e todas suas dúvidas e incertezas voltam a assombrá-lo. O desespero aumenta incessantemente.

Um órgão entra. A atmosfera muda, quase que, por completo. Manfredo parece ter se decidido: ele quer morrer. Não há mais a duvida de antes. Ele está feliz com a decisão.

Manfredo morre feliz.

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Agora, eu simplesmente não sei o que dizer sobre tal música! Ela é espetacular! É um privilégio poder dividir com vocês, leitores, o que é a Sinfonia Manfredo, de Tchaikovsky.

A poesia escrita por Lord Byron (descrita pelo próprio como um drama “metafísico”), foi de sucesso enorme em sua época. Nietzsche ficou impressionado com a representação do poema de um super-humano e de suas várias misticidades (como a ideia de fada e o inferno), e escreveu algumas músicas para tal poesia.

Acho uma vergonha não existir uma tradução que valha a pena de tal poesia (de simples 120 páginas(pelo menos onde eu vi)). Enquanto há traduções perfeitas, mais que perfeitas, de livros repugnantes, que promovem um senso comum acima do que um ser humano devia aguentar e tolices tais quais: Crepúsculo, Vampire Diaries, Gossip Girls, Bíblia e entre outros (não se esqueça: É A MINHA OPINIÃO. Se a sua opinião for que Crepúsculo não promove tal, apresente argumentos que comprove, senão, apenas não comente sobre). É uma pena não termos tal livro disponível em uma boa tradução aqui no Brasil.

A poesia Manfredo foi escrita em uma época em que Byron se exilou da Inglaterra para a Suíça, por causa de problemas conjugais, onde sua esposa, Annabelle, acusava-o de incesto com sua meia-irmã, Augusta. Durante tal período de exílio, ele foi para os Alpes Berneses, onde lhe veio a inspiração para Manfredo, juntada a sua ocasião de extrema tristeza pelo desfecho de seu casamento.

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Ouçam o “Manfred” de Schumann. É bem menor, mas nem por isso deixa de ser lindo. Mas a do Tchaikovsky, pra mim, ainda é melhor \o

Agora se me derem licença, ouvirei as Seis Sonatas para Dois Oboés e Baixo Contínuo de Händel ^^

3 thoughts on “Resenha musical

  1. Um ótimo post, Felipe, parabéns. Se você quiser fazer um artigo semelhante sobre O Lago do Cisnes (minha canção favorita) ficarei feliz.
    Também acho um absurdo sem tamanho. Estou há anos procurando uma tradução de Don Juan, uma das obras mais conhecidas de Byron, e nada encontro. Consegui de um conhecido a tradução de Manfred em documento de word, se alguém quiser, posso enviá-la por e-mail.

    • Obrigado! Esse post me tomou muito tempo de audição e de passar para o blog o texto! Foi cansativo, diria.

      Bom…”Lago dos Cisnes” é muito lindo. Muitos dizem que é a melhor peça de ballet de Tchaikovsky. Vou precisar ouví-la melhor, ler sua história e tal e então pensar em um texto. Se eu fosse fazer uma resenha de um balé de tchaikovsky, por ora, seria o “Quebra Nozes”, tanto porque eu amo essa peça quanto porque eu já conheço a história e vi duas vezes o balé ao vivo.

      E bom…Brasil é uma merda com livros estrangeiros que são bons. Sem mais.

  2. Pingback: Tchaikovsky – Sinfonia Manfredo (1885) op. 58 | Art for Deaf and Blind

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