Pensamentos aleatórios #37

Sobre a amizade e por que vou cursar medicina.

Dia desses estava fazendo a prova da UNICAMP e tive umas associações que quero compartilhar aqui sobre a amizade, estava protelando isso mas depois de uma ligação que recebi ontem e um artigo que Eu li fiquei saudosista e resolvi escrever sobre isso agora.

Tudo começa no Ano do Senhor de número 2010, mês 11, dia 25, logo nos ultimos meses do ano quando pude me exilar do contato humano via internet e ficar em casa estudando e lendo randomicamente – tudo muito normal até que o telefone toca e minha irmã atende:

“Cure, uma tal de (todos os nomes deste artigo são fictícios) Maria da Graça quer falar contigo…”

Logo um filme passa na minha cabeça:

“Maria da Graça? Como Ela tem meu telefone?!”

E Eu agarro o telefone como um filósofo nascido no Acre sedento por um livro do Júlio Verne:

“Graça, qiso/!?! Como Tu tem o meu telefone!?”

E a gentil moça discorre sobre sua gentil amiga e pirata so called Sir Francis “‘Zi” (você já deve ter lido sobre Ela por aqui, meu caro filhote) que queria falar comigo.

Enfim, falamos por meia hora via celular (tenho pena de seu bolso depois desta ligação) sobre alguns assuntos com diversos momentos onde Elas se divertiam com o meu ‘sotaque paulista‘ (pura ilusão, paulistas não tem sotaque) e conversavam comigo enquanto eu lutava contra o cansaço e pedia a cada 3 segundos para que elas repetissem o que diziam e matutava este texto enquanto conversava sobre milhares de coisas novas para contar.

Depois de uma conversa interessante que eu não tinha fazia muito tempo Eu desligo o telefone me sentindo esquisito, monótono e mergulho num sono de 9 horas nonstop.

Acordo pensativo, o que significava aquilo? Eu tinha cogitado uma ligação dessas, mas essa ligação estava entre os itens mais remotos da minha lista de coisas possíveis; esperava antes por ataques zumbis e guerras civis no Rio de Janeiro.

Ela nunca me ligaria em hipótese alguma, Ela tem vergonha – a Maria ligou para Ela por que provavelmente não aguentava mais ouvir falar em mim. Por que?

Passo a manhã pensando nisso, pensando nesse ato simples e resolvo retomar algo que Eu deveria ter escrito faz muito tempo, uma resposta (talvez) para uma pergunta que todos se fazem:

“Qual a verdade a ser aceita? Palavras ou Fatos?”

MAS, antes que Eu possa começar a falar sobre isso tenho que voltar AINDA mais no passado, antes da ligação e da prova da UNICAMP, tenho que voltar para o dia 30 de outubro as 11:40 da noite enquanto digo para uma amiga que (em tese) me adora que vou passar um tempo fora.

A garota (em quem não deposito muita confiança por causa da sua natureza manipuladora) pede meu telefone e diz que IRÁ me ligar para conversar – não boto fé alguma mas passo o telefone com a certeza de não ouvirei sua voz nesses 45000 minutos sem redes sociais de qualquer tipo – “Quero conhecer gente nova”, é o que Ela diz.

É claro, gente nova…

Volto ainda mais no passado, volto para o 3º ano do ensino médio, volto para uma aula de Português onde debatíamos Fernando Pessoa e cada grupo discutia um heterônimo enquanto apenas um grupo discute o Ortônimo, F.P. por ele mesmo e fazem um trabalho ótimo sobre o único livro do homem: ‘Mensagem’.

Estou fazendo a prova da UNICAMP, leio a questão 32 do caderno Q,  lendo justamente sobre ‘Mensagem’:

Referindo-se à expansão marítima dos séculos XV e XVI, o
poeta português Fernando Pessoa escreveu, em 1922, no
poema “Padrão”:

“E ao imenso e possível oceano
Ensinam estas Quinas, que aqui vês,
Que o mar com fim será grego ou romano:
O mar sem fim é português.”
(Fernando Pessoa, Mensagem – poemas esotéricos. Madri: ALLCA XX,
1997, p. 49.)

“FALA LOGO O QUE TU QUER FALAR, PARA DE FALAR DAS TUAS PROVAS”

Vamos lá, eu sei que você está pensando nisso.

Volto agora para o 2º ano do ensino médio quando leio um escrito do F.P. chamado “O Banqueiro Anarquista” (leia, é importante saber o contexto) e me lembro de um trecho interessante:

“- Procurei ver qual era a primeira, a mais importante, das ficções sociais. Seria a essa que me cumpria, mais que a nenhuma outra, tentar subjugar, tentar reduzir à inatividade. A mais importante, da nossa época pelo menos, é o dinheiro. Como subjugar o dinheiro, ou, em palavras mais precisas, a força, ou a tirania do dinheiro? Tornando-me livre da sua influência, da sua força, superior portanto à influência, reduzindo-o à inatividade pelo que me dizia respeito a mim. Pelo que me dizia respeito a mim, compreende V.?, porque eu é que o combatia; se fosse reduzi-lo à inatividade pelo que respeita a toda a gente, isso não seria já subjugá-lo, mas destruí-lo, porque seria acabar de todo com a ficção do dinheiro. Ora eu já lhe provei que qualquer ficção social só pode ser “destruída” pela revolução social, arrastada com as outras na queda da sociedade burguesa.”

“Como podia eu tornar-me superior à força do dinheiro? O processo mais simples era afastar-me da esfera da sua influência, isto é, da civilização; ir para um campo comer raízes e beber água das nascentes; andar nu e viver como animal. Mas isto, mesmo que não houvesse dificuldade em fazê-lo, não era combater uma ficção social; não era mesmo combater: era fugir. Realmente, quem se esquiva a travar um combate não é derrotado nele. Mas moralmente é derrotado, porque não se bateu. O processo tinha que ser outro – um processo de combate e não de fuga. Como subjugar o dinheiro, combatendo-o? Como furtar-me à sua influência e tirania, não evitando o seu encontro? O processo era só um – adquiri-lo, adquiri-lo em quantidades bastante para lhe não sentir a influência; e em quanto mais quantidade o adquirisse, tanto mais livre eu estaria dessa influência. Foi quando vi isto claramente, com toda a força da minha convicção de anarquista, e toda a minha lógica de homem lúcido, que entrei na fase atual – a comercial e bancária, meu amigo – do meu anarquismo.”

O banqueiro diz que a única maneira de ser independente de algo era possuir muito daquilo, portanto possuir muito dinheiro é, para ele, é a melhor maneira de se ver livre do dinheiro.

E se for diferente? E se a maneira de ser MENOS dependente de algo é ter o mínimo possível daquilo sem passar por necessidades?

Se a maioria das coisas que nós temos são desnecessárias, por que agregamos determinado valor a pessoas que não retribuem com palavras verdadeiras o que sentimos?

Acho engraçado, conseguimos ficar sem msn, orkut, twitter, etc e mesmo assim é difícil deixar de pensar nas pessoas que conversamos por lá (tenho muitos links e coisas a dizer), é difícil ignorar o que sentimos por Elas e que gostaríamos de estar próximos delas agora.

Bem, Nós vemos nestes momentos esquisitos quem realmente é seu amigo e quem é seu amigo por conveniência (em um comentário falei sobre a ilusão de variedade,Ela se aplica aqui, google it) – algumas pessoas acabam falando milhares de coisas mas não movem um músculo para mudar qualquer coisa enquanto outra renunciam ao conforto da permanência da bunda na cadeira para mudar qualquer coisa (mesmo com a ajuda dos amigos) – passei a manhã pensando nisso, pensando na sutileza dessas coisas e dessas ações pequenas que te fazem sentir um ser humano e devem (e serão) guardadas.

Geralmente não damos importância pra essas coisas ‘bobas’ não é?

Falando em sutilezas e coisas bobas, acabei por me lembrar do meu irmão que morreu há uns anos atrás, me lembrei dele um dia desses e resolvi baixar um jogo que eu dei
para ele no seu aniversário de 13 anos:

‘Lord of The rings – The fellowship of the rings’

Nostalgia, é.

Me lembrei da sua humildade (sem puxassaquismo algum) quando tratava todos com desconfiança alguma, me lembrei da sua capacidade incrível de deixar as de lado os problemas supérfluos como brigas, Ele era simples assim mesmo sendo chamado de idiota por vários dos seus amigos e inclusive certos familiares.

Me lembrei da sua cama do hospital do SUS, me lembrei da sua namorada dizendo que não queria que o namorado sobrevivesse mas ficasse mentalmente debilitado, me lembrei da sua mãe que falou que ia ganhar muito dinheiro com o processo que pretendia mover, me lembrei do apartamento bonito que ela ganhou pouco depois da morte do garoto para não processar a empresa que deixou um menor trabalhar e sofrer um acidente que seria fatal – afinal, te amamos muito, rapaz – se você nos der dinheiro te amaremos mais.

Inclusive, me lembrei de todos os por que’s que decidiram minha opção por medicina.

Me lembrei por que estou estudando para o vestibular cerca de 12 horas por dia, por que acordo 6 da manhã e vou dormir meia noite todo o santo dia – quero ser médico por causa destas sutilezas e peculiaridades que nós temos no nosso comportamento.

– Nós falamos bíblias, mas raramente fazemos algo para mudar.-

E quando fazemos algo, por menor que seja a ação (e aparentemente inútil),  as sutilezas do nosso caráter e uma pontinha de quem somos de verdade aparece – ai sim conhecemos quem nos cerca e quem devemos chamar de amigos.

O Cascão não tentava manipular o Cebolinha para desistir e não apanhar da Mônica ao tentar roubar o coelho, apenas ia junto com o amigo (para apanhar muito) por que gostava dele.

Sem interesses secundários, sem ‘vamos fazer do meu jeito’, sem pressão moral, nada.

“Ai, mais Ele é um personagem de gibi!!!!!”

E dai? Quantos amigos assim você tem?

Dia desses me convidaram para uma festa e um ‘amigo’ meu disse que não queria que me chamassem.

O pior é que eu sei por que ele não quer me ver, também sei que ele não gosta de mim por algo que não tem a ver com ele, também sei que se eu aparecer um dia na casa dele serei muito bem tratado e ouvirei os melhores elogios.

Por isso fiquei pensando essa manhã toda nisso, este telefonema, esta ação, valeu todos os segundos que passei fora do MSN e do Orkut.

7 thoughts on “Pensamentos aleatórios #37

  1. “me lembrei da sua namorada dizendo que não queria que o namorado sobrevivesse mas ficasse mentalmente debilitado” Essa é com certeza uma das piores sensações que uma pessoa pode sentir.

    • Seria a Biba? A bela moça da 3º idade que gosta de cães e sempre conta as mesmas histórias?

      Hm, quer conversar sobre isso?

  2. não acredito que resolveria muita coisa, mesmo depois de exatas 3 semanas, passo no máximo 5 minutos sem pensar no assunto.

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