Casos Corriqueiros de uma Justiça às Avessas

Meu profundo descontentamento com certas coisas da vida em sociedade me impele a postar aqui um breve parecer. Encarem-no como um tipo de desabafo – falta-me uma palavra mais adequada para designa-lo -; e de fato, razões não me faltam para “desabafar” – as aspas aliviam o erro de uma palavra incerta. Hoje, dia 21/10/2010, minha companheira, que faz parte deste Blog, foi a uma viagem escolar com outros alunos selecionados pelos professores do seu colégio. Qual o destino? A UFPR estaria disponibilizando aos alunos uma palestra sobre paleontologia – para quem não sabe, sou fascinado por paleontologia, desde que era um infante. Os critérios de seleção baseavam-se no grau de inteligência dos alunos – em suma, os melhores de cada sala iriam à palestra. Foi aí que começou as “putarias”, como falamos coloquialmente.

Para começar, minha companheira, que é a aluna mais brilhante do período noturno – sim, isso não é retórica, e os próprios professores a reconhecem como tal, fora que um boletim onde só se vê números 10 não é para qualquer um -, não foi selecionada, isso que se tratava de selecionar os melhores alunos da sala. Irônico, não? E o pior é que os alunos escolhidos foram, precisamente, os cabeças de vento, os mais débeis e desinteressados. Foi preciso que ela interviesse junto com os professores para não deixarem-na de fora – afinal, como ela poderia ficar de fora sendo ela a aluna mais brilhante? Resolvido o problema, e tendo ela chegado a casa, atualizou-me da novidade. Sugeriu também que eu talvez pudesse ir junto, posto que muitos faltariam, – e vão faltar, não duvidem – por falta de interesse pela palestra (espera-se que eles saibam ao menos o que é paleontologia?), ou simplesmente iriam mas como sacos vazios sem a menor relevância – eles iriam, mas ao mesmo tempo não estariam lá.

O combinado seria que no dia seguinte, véspera da viagem, ela indagasse aos professores sobre a possibilidade de se convidar alguém caso vagas ficassem disponíveis no ônibus. A resposta dos professores foi, adivinhem? Sim, exatamente: não. O argumento era o de que seria uma injustiça levar alguém de fora e não alguém do colégio. Ora, mas o problema é que os alunos que irão são os baderneiros, os vagabundos, os desprovidos de inteligência, os incapazes de assistir a uma palestra do tipo de modo que não sentissem sono e/ou tédio, ou simplesmente conseguissem manter a boca fechada sem fazer piadinhas extremamente sem graça e estúpidas. O interesse deles nessa viagem não era o de entrarem em contato com um saber de certo modo alheio a tudo o que eles já haviam visto, até mesmo no colégio, mas das vantagens quetal viagem lhes daria: escapar de duas aulas horríveis de matemática, não levar falta, e poder passear em outra cidade. Tanto que as meninas, as mais bestiais, já discutiam os modelitos que vestiriam na viagem – acho que não avisaram a elas, essas pobres donzelas, que se tratava de uma palestra sobre paleontologia, não de um desfile de moda ou de uma feira exibicionista.

Não consigo pensar como a palavra justiça pode ser aplicada nesse contexto. Permitir que verdadeiros asnos se divirtam badernando tem mais importância que o interesse de alguém verdadeiramente desejoso de assistir uma palestra tão esplendida? Eu, que de fato iria com o intuito de assistir a palestra, fui deixado de lado em prol de um bando de semi-analfabetos funcionais, apreciadores de Funk e Justin Bieber, que mal sabem o que viria a ser a seleção natural ou a divisão do tempo geológico, e que estavam tão-somente preocupados com a roupa que iriam vestir – no caso das meninas imbecis que não sabem pensar em outra coisa – e com “zoar pra caralho nessa viagem” – no caso dos rapazes desmiolados.

Agora cá estou, no aguardo de minha companheira – muito provavelmente estarei indo dormir logo após postar este texto, então, não a verei -, muito “puto” com tudo isso, e ainda morrendo de sono por ter virado a madrugada “nerdiando” num game online viciante. O pior é saber que praticamente ninguém irá aproveitar a palestra, que tão logo saiam de lá, esquecerão completamente o que se passou. Pessoas sem valor, indignas de participarem de eventos destinados somente àqueles verdadeiramente interessados, não deveriam gozar de tantos privilégios. É em horas como essa que me vejo concordando com Nietzsche: é o forte que precisa ser protegido do fraco, não o inverso. Digam que estou sendo ressentido, podem dizer mesmo, não me importo, a começar pelo fato de que realmente eu não o estou sendo – e sei muito bem que não. Vejo-me no direito de reclamar das burradas do nosso belíssimo sistema de ensino, e da grande capacidade de avaliar de nossos professores e outros profissionais da educação. Ah, eu gosto tanto deles, principalmente quando com bastante pimenta e mal passados (sacaram o sarcasmo?).

5 thoughts on “Casos Corriqueiros de uma Justiça às Avessas

  1. Enfim, chegando agora me deparo com esse texto, fico lisonjeada e triste também, pois excluíram Rico que é completamente apaixonado por Paleontologia, e não pode ir a cidade vizinha se deliciar, com os fósseis de animais bélissimos, ver a lua através de telescópios, e outros planetas e etc …
    Estou cansada, estava em uma vã com seres inúteis, e olhando tudo quanto era menina que passava na rua porém aprendi muito sobre paleontologia, e astronomia e outros, sim não fui escolhida e achei um absurdo outras pessoas irem no meu lugar sendo que só “gazeam” aula, o que esse pessoal ia fazer lá? E as meninas o que fizeram? Ficavam de olho nos coordenadores da feira, e olhando os professores do recinto, umas vadias, cadelas no cio que não sabem aproveitar a oportunidade que lhe és dada. Absorvi muito do que vi e ouvi, mas obviamente faltou algo (alguém) não digo por que é meu parceiro e sim pela sua paixão sobre tal assunto, tanto que depois que ouvi qual seria o foco o que me veio em mente tão rapidamente? rs Rico. ^^ adorei ter ido lá passou além do que eu esperava, eu me enturmei tão logo com os professores e estagiários e foi interessante, e eles nos ensinam e aprende junto. Fico por aqui e dou toda razão a revolta de Rico, tanto que eu não tivesse intervido nem eu mesma teria aproveitado tanto a viagem.

    (Estava demorando para Rico citar Nietzsche hehe apareceu somente no final ;D)

  2. ‘Tanto que as meninas, as mais bestiais, já discutiam os modelitos que vestiriam na viagem’.
    Eu iria postar uma bíblia aqui, mas depois de ver esse trecho eu acho que qualquer um consegue entender o que passou pela minha cabeça.

  3. :/ vida não é justa mesmo, os que querem alguma coisa sempre tem de lutar absurdamente pra conseguir alguma coisa… sei la pq disso.

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