Igreja e Estado

Dentre as teses mais difundidas no nicho anarquista encontra-se aquela, oriunda do pensador anarquista Mikhail Bakunin (1814 – 1876), talvez a mais polêmica: um certo ateísmo político,  que tem como axioma a idéia de  conciliação entre poder eclesiástico e poder estatal; uma unidade própria. Não me compete refletir acerca de todas as implicações que tal axioma produz, seria um tema para uma outra postagem – ter-se-ia que escrever todo um tratado para explicitá-la. Mas me vale, como crítico anarquista, indagar: até que ponto Bakunin está certo – se é que está certo – ao pensar uma unidade entre poderes tão distintos – embora possam servir a um mesmo fim, que seria a opressão -, como o é o poder estatal e o eclesiástico?

Bakunin viveu num século turbulento – século XIX – onde o Estado e a Igreja de fato, operavam em consonância, posto que o cristianismo era imperioso e muito pouco se questionava a respeito de seus dogmas. O poder eclesiástico era soberano, tinha influência nas decisões políticas, a Santa Igreja não era coadjuvante, mas participava ativamente da política estatal. É certo que estávamos ainda na derrocada das chamadas sociedades da soberania (Foucault) onde a organização de poder era mais centralizada. A Rússia, ainda pré-capitalista e pré-industrial, preservava quase tudo do Antigo Regime (feudalismo), daí também a razão de se pensar a Igreja em unidade com o Estado; inclusive a opressão mais severa e a ignorância mais generalizada. Seria compreensível que Bakunin concluísse em suas investigações que Deus a religião e a Igreja deveriam ser suprimidos juntamente com a instituição estatal. Certamente Bakunin aí comete um engodo, quando confunde Deus religião e Igreja, como se esses três elementos fossem intrínsecamente ligados, mas um engodo que pode ser justificado através de uma análise histórica atenta.

Hoje há ainda o fantasma dos corolários bakunianos assombrando os teóricos libertários. Não desejaria ser grosseiro, mas, em verdade vos falo: há mais bestas desmioladas que anarquistas hoje. Não seria preciso nem mesmo entrar no âmbito do ressentimento, do ódio, da reatividade, do idealismo e da decadence típica dos grupúsculos anarquistas, basta mesmo uma breve passada de olhos em sites e comunidades do Orkut, para se ver o que falo. É um grande problema a falta de tato que os jovens anarquistas tem ao entrarem em contato com a literatura anarquista. Criticam o autoritarismo, o dogmatismo, a cegueira social, o conformismo e a anomia, mas são incapazes de ler um texto com criticidade. Acatam o que se diz em qualquer folheto anarquista… E ainda querem que sejam levados a sério nas lutas políticas? Pois bem, deixemos de lado minha cólera em relação ao movimento anarquista.

Penso ser de suprema importância indagar se a análise bakuniana ainda procede. É possível pensar a Igreja como sendo “acoplada” ao Estado? E de que maneira se daria tal acoplamento hoje? Dado alguns exemplos notórios não me restam dúvidas acerca do afastamento dos interesses da Igreja dos interesses do Estado. Não me parece certo insistir na análise bakuniana. Em diversos aspectos a Igreja se coloca radicalmente contra os interesses do Estado: em relação ao aborto, que em alguns países, é apoiado pelo Estado, a Igreja intervém ferozmente em favor de um retorno ao proibicionismo;  em relação ao uso de preservativos, na África, há todo um investimento massivo por parte da Igreja em fazer com que os africanos não usem preservativos, e aqui mesmo no Brasil, quando o Estado promoveu uma campanha de distribuição de preservativos no carnaval (acho que em 2008), a Igreja não mediu esforços para tentar impedir o Estado de dar prosseguimento a campanha (houve mesmo intervenção judicial); em relação ao estudo de células tronco, a igreja também bateu de frente com o Estado, reclamando realmente que tais estudos não fossem realizados, tendo como justificativa todo aquele discurso moralista que já conhecemos bem. Os exemplos são variados e notórios – isso que eu não citei o uso de drogas, isso que eu falei sobre a visão religiosa a respeito desse tema -, e tramam contra a análise bakuniana, que muitos anarquistas tomam como uma verdade absoluta – eu mesmo já fui acusado de pseudo-anarquista pelo simples fato de questionar a atualidade de tal análise.

Eu seria incapaz de negar a importância de Bakunin, não só como teórico anarquista, mas como figura ícone da história russa. A leitura dos textos bakunianos nos permite um entendimento de como a história das teorias libertárias se desenvolveu. Sua importância se exprime hoje, nas conversas entre anarquistas e não-anarquistas: se um jovem curioso pede sugestões de leitura, apontamentos, logo o nome de Bakunin aparece, e embora existam as devidas ressalvas em relação ao seu legado, sua leitura não deixa de ser fundamental. Para mim, o importante é não fecharmos os olhos para as mudanças que a realidade, a todo momento, nos impõe, fazendo-nos modificar – ou até abandonar – nossos pensamentos, forçando-nos a duvidar da segurança de teorias solidificadas pelos séculos. Eu até abusaria do meu direito a contra-sensos, e faria uma sugestão muito rica de leitura, se se quer ter uma idéia melhor formada sobre religião, Deus e Igreja: Durkhein. O pai da sociologia tem muito a dizer sobre esse tema – juntamente com Max Weber, outro sociólogo renomado. Eu diria que esses dois pensadores superam as análises de Bakunin, nos auxiliando a compreender os fenômenos da crença, os mitos e em como a religião não apenas aparece como um orgão adestrador e/ou manipulador social, indo mais além.

6 thoughts on “Igreja e Estado

  1. O nosso Estado é TÃÃÃO laico que:

    *em nossa moeda tem escrito “Deus seja louvado”;
    *pesquisas são impedidas por causa da igreja, tais quais a que você disse;

    Eu fico com raiva desse “Deus seja louvado” no rg de nosso país…é pura hipocrisia o Estado se declarar laico, mesmo que, visivelmente, ele é tão manipulado pela igreja.

    E uma coisa ainda me intriga…por que é que você, um ateu, escreve “deus” em letra maiúscula? XDDD Só curiosidade mesmo ^^

  2. Seguindo na esteira foucaultiana, onde o poder em nossa sociedade é difuso, disperso, livre, é possível pensar, a partir daí, atravessamentos, encontros, “conciliações de poder”, entre Estado e Igreja. Há casos em que o Estado fica ao lado da Igreja, mas há muitos outros onde os interesses se chocam (como é o caso do aborto e do uso dos preservativos). Dizer que o Estado é laico é pura retórica. A moral predominante dentro do Estado é a cristã. Não importa se você crê ou não em Deus, mas se a moral é cristã, certamente que haverá um certo privilégio. Minha crítica a Bakunin se dá, principalmente, pelo fato de que hoje ela não funciona mais, posto que o poder não é algo assim tão bem demarcado como quer grande parte dos anarquistas. Onde começa e onde termina o poder do Estado? Onde começa e onde termina o poder eclesiástico? Alguém que consiga responder a essa pergunta merece um Nobel (XD). O fato é que nem sempre Estado e Igreja “andam de mãos dadas”. E sobre o fato de eu escrever Deus iniciando com letra maiúscula, trata-se apenas de um perfeccionismo ortográfico; não respeito Deus, mas respeito a língua… rsrs

  3. “É um grande problema a falta de tato que os jovens anarquistas tem ao entrarem em contato com a literatura anarquista. Criticam o autoritarismo, o dogmatismo, a cegueira social, o conformismo e a anomia, mas são incapazes de ler um texto com criticidade. Acatam o que se diz em qualquer folheto anarquista… E ainda querem que sejam levados a sério nas lutas políticas? Pois bem, deixemos de lado minha cólera em relação ao movimento anarquista.”
    O problema da maioria dos Anarquistas Ateus é realmente este que você aponta:
    -Não questionamento dos dogmas e das supostas verdades bakunianas.
    -Não adaptação – essa anacronia – do teórico ao prático no presente.

    mimimi, estou estudando, quem sabe completo mais tarde.

  4. Pois é, Cure. E olha que eu sou ateu. Detesto o ateismo militante. É algo patético. O pior é que muitos ateus se deixam levar pela conversa do Dawkins, o ateu militante mor, e pensam estar numa espécie de Cruzadas em nome da razão. É foda.

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